FILMES 04 05

Domingo, Julho 25, 2004

Julho:

(últimos: /Simplesmente amor/, 80; /Brilho eterno de uma mente sem lembranças/, 45, Fahrenheit 11 de Setembro, 79)

01 - Cruzeiro das Loucas (Boat Trip, ???, 03) - DVD/dia1 25

02 - Homem-Aranha 2 (Spider-Man 2, Sam Raimi, 04) - Cinema/dia2 72

03 - /Homem-Aranha 2/ [2a] (Spider-Man 2, Sam Raimi, 04) - Cinema/dia5 70

04 - Garfield - O Filme (Garfield The Movie, Pete Hewit, 04) - Cinema/dia17 28

05 - O Último Samurai (The Last Samurai, Edward Zwick, 03) - DVD/dia19 39

[Blergh, muito chato. Previsível falar que é previsível. Sanduíche de obviedade, recheado com um pinguinho de história bacana sobre amizade, mas que no final não é suficiente para dar gosto considerável ao conjunto. Comi obrigado pela mamãe, lutando contra os cochilos - e continuo sem entender a mania que esse povo tem de querer (melo)dramatizar até não poder mais toda e qualquer cena, meu Deus.]

06 - Primavera, verão, outono, inverno...e primavera (Bom yeoreum gaeul gyeoul geurigo bom, Kim Ki-duk, 03) - Cinema/dia20 63

[Narrativa e metaforicamente óbvio (há portas se abrindo/fechando para o ínicio/fim de cada fase da vida, a estrutura é circular - como a vida, segundo o filme e o próprio título já deixa claro - e torna-se excessivamente previsível), me pareceu um bocado dependente do clima poético e da beleza estética das locações, embora não me sinta seguro afirmando uma coisa dessas antes de uma possível revisão. Mas mais interessante é com certeza o discurso pró-ser humano (anti-Dogville? :-D) ensaiado pelo filme. Todos somos aptos à maldade (o garotinho e a "brincadeira" com os peixes; o homem desapontado cego pelo ciúme), parece querer dizer o diretor, mas da mesma forma todos podemos aprender a lidar com ela da melhor maneira possível (o choro pós-compreensão da criança; a volta do homem, agora completamente maduro, ao templo). Vontade de ver de novo e conhecer melhor o cinema desse Kim Ki-duk.]

07 - Dez (10, Abbas Kiarostami, 02) - DVD/dia21 87

[Protagonista sem nome = sua amiga, sua irmã, sua tia ou sua mãe. Não-atores que têm performances assustadoras, fazendo com que as discussões presentes no filme fluam com naturalidade e soem absolutamente reais (é certo que passa pela cabeça de um turbilhão de gente pensamentos como "eu já disse isso à fulano, eu já ouvi isso de cicrano", etc). Kiarostami aproxima ao máximo a ação da tela com a que é vivida pelo espectador, chegando inclusive a confundir - você nunca saberá ao certo se o que está vendo é ficção ou documentário. Nesse ponto não vejo como a narrativa, com câmera sempre fixa e dividida em dez segmentos aparentemente distintos, poderia funcionar melhor. Cenas pertubadores (o que é aquele discussão do começo? Chegou à um ponto onde eu já estava começando a imitar os movimentos do moleque sem perceber), comentários e questionamentos a respeito da posição ocupada pela mulher no Oriente Médio sempre bastante pertinentes (o que separa, naquela realidade, a prostitua da esposa?). No final é tudo sobre alguém que busca desesperadamente por algum espaço para que possa, simplesmente, viver com paz e tranquilidade.]

08 - Ligado em Você (Stuck on You, Farrelly Brothers, 03) - DVD/dia22 76

[Me admira, no cinema dos Farrely, a capacidade notável - que é uma constante e vêm crescendo e sendo aperfeiçoada desde Débi & Lóide, diga-se - de se transformar todo e qualquer personagem (do garçom deficiente à gostosa-burra-aspirante-a-atriz, dos protagonistas de bom coração à celebridade decadente metida) em alguém tão real e importante quanto eu e você. Eles mudaram, sim, e com eles seus filmes - mas a questão é: onde vêem um amolecimento nas piadas, rendição à Hollywood e coias do tipo, eu não consigo ver outra coisa a não ser evolução (a tiração de sarro com Hollywood aqui é engraçadíssima, aliás). A cada novo filme testemunhamos uma obra mais lúcida, consciente e funcional (quer rir, pois não). Que me avisem quando mudar assim for ruim.]

09 - Confidence: O Golpe Perfeito (Confidence, James Foley, 03) - DVD/dia22 51

[Ai ai, mais um filme de roubo. Piloto automomático, enésima variação do tipo, etc. Ainda bem que esse aqui especificadamente é bastante divertidinho, flui muito bem e tem um timing cômico razoável, apesar de Edward Burns quase estragar tudo com sua atuação na melhor das hipóteses horrorosa. Dustin Hoffman e Andy Garcia dando show, deveriam ter seus personagens melhor explorados. Passatempo vazio mas indolor, que não faz falta alguma. Pra ver numa madrugada tipo essa aqui de hoje, no máximo.]

10 - O Agente da Estação (The Station Agent, Thomas McCarthy, 03) - Cinema/dia22 73

[Excelentes interpretações a serviço de ótimos personagens, nos quais o filme parece realmente interessado e disposto a explorar - algo que, convenhamos, um pouco mais e se tornava raridade no atual cinema independente americano. Lida muito bem com as tramas paralelas, e é bastante feliz na caracterização do seu personagem central: um anão aposentado que não se julga diferente de ninguém ("eu não entendo [o motivo pela qual é alvo de brincadeiras de gosto duvidoso e olhares curiosos], sou apenas uma pessoal simples e sem graça", diz ele). O filme, sabiamente, não ignora nem supervaloriza o fato do seu protagonista ser alguém diferente da maioria das pessoas, quando poderia facilmente reduzi-lo a piadinhas sem graça + tenham pena de mim, etc. Nucha chega a ser fenomenal, mas é, do início ao fim, uma bonita e prazerosa ode à amizade.]

11 - Matadores de Velhinhas (The LadyKillers, Coen Brothers, 04) - Cinema/dia22 44

[Quando não são personagens ruins (fortão-idiota? Hahaha. Japonês-introspectivo-com- bigodinho-à-Hitler? Hahaha. Martin Law...Irma P. Hall como a negra-gorda-velha-americana-que-vai-a-igreja-e-dá-esporro-em-todo-mundo? Hahaha), são personagens mal interpretados (Tom Hanks tão, tão, mas tããão forçado...). O que temos aqui, muito em consequência desses dois fatores, é uma comédia onde a maioria das piadas não funciona e em alguns momentos chega a beirar o constrangedor. A idéia da apresentação dos coadjuvantes é boa, mas absurdamente deslocada (é como se fosse outro filme, com os mesmos personagens mas completamente distinto do que estamos vendo). Há sinais claros de desleixo nos Coen (uma motivação para o crime cometido é algo primário, não?), e no anti-clímax do final, a ironia se perde, literalmente. Perdida em algum lugar do passado, provavelmente junto com aqueles diretores que antigamente nos brindavam com filmes como Fargo e O homem que não estava lá.]

12 - Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, Michel Gondry, 04) - Cinema/dia24 60

[Uma bosta - cheio de truques espertos, roteiro excessivamente calculado, uma colcha de retalhos de momentos românticos bonitinhos múltiplos e variados acentuados por trilha sonora obviamente mela-cueca, de discurso fácil (aquele OK do final é o supra-sumo da mensagem CUTE-"vale a pena a pesar de...") -, maaaas, por alguma razão ainda infelizmente desconhecida pela minha pessoa, adorei. E acompanhei tudo com um ar de satisfação que normalmente só indentifico naqueles filmes encantadores que te deixam bobo, e um sorriso no rosto que era eventualmente transformado em leve gargalhada - com direito a achar uma ou outra coisa brilhante aqui e ali (tipo a sequência pré-créditos e a fuga para as memórias da infância - que são, assim, QUALQUER COISA - ou então o "oh, tem umas pessoas saindo pela tua bunda!" que tem um cheiro delicioso de improviso Carreyano (very well thanks), como costumam dizer. Não sei se sou esquizofrênico ou coisa do tipo, mas essa situação tá me dando aflição. Pretendo rever o filme e espero encontrar uma solução, porque desse jeito definitivamente NÃO DÁ. Em tempo: Kirsten Dunst dançando chapada de calcinha e blusa branca meio transparante + Kate Winslet (very well thanks) olhando mancha rocha na bunda por aproximadamente 3 segundos = graaaandes momentos.]


13 - /Simplesmente Amor/ [2a] (Love Actually, Richard Curtis, 03) - DVD/dia26 80

[Primeira cena. Um turbilhão de gente em aeroportos, se abraçando, se beijando. Entra a narração em off de Hugh Grant, que diz alguma coisa desse tipo: "o mundo não é um lugar cheio de amor? Quando vou aos aeroportos, eu percebo que o amor, na verdade, está em todo lugar." Ok, e eu espero o quê? Ficção científica, fantasia, O Mágico de Oz? Custei a acreditar e perceber, mas Simplesmente Amor é um filme que pede, GRITA, quase implora para que o espectador tome nota de que o que está vendo ali é tudo, menos algo cível, real, humanamente possível, até. Um garotinho de não mais que 10 anos, correndo em um aeroporto (mais uma vez) atrás de seu grande amor, querendo se declarar, com todos os seguranças do lugar atrás dele sem nunca alcançá-lo (em algo que nos lembra aquelas perseguições-à pé onde o vilão escurrega na banana ou algo do tipo). Definitivamente, não dá - eu sei, você sabe, o filme concorda. Como disse alguém na época do lançamento, isto aqui é pé na jaca total e assumido, e por isso funciona tão bem. Diabétios, stay away. Simplesmente amor nos apresenta uma realidade pararela, um mundo fantasma feito de açucar, pessoas boas e amor por toda parte. Um lugar melhor que não existe e todo mundo sabe que não existe. E eu gostei, porque quando vi não tinha nem notado e estava lá naquele planeta estranho rindo como um bobo e achando tudo lindo e cheio de amor. É um filme que, se não fizer mais nada (e faz), nos faz mergulhar de cabeça em sua própria realidade. E aí eu fico pensando: se não há cinema a sair pelo ladrão nisso aí tudo, onde mais há?]

14 - /Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças/ [2a] (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, Michel Gondry, 04) - Cinema/dia26 45

[Não consigo, de fato, arrancar nada do suposto filme sobre (ahn) relacionamentos amoros, além de uma mensagenzinha cute (basicamente: não há nada sem ceder e difeferenças sempre vão existir, bons momentos vêm, invariavelmente, ao lado de maus, mas os bons valem muito a pena e é preciso aprender a lidar com isso etc) - e que, convenhamos, já faz parte do livrinho de conhecimentos imaginário que há dentro da cabeça (pescou, pescou?) de todo e qualquer ser humano com um mínimo de experiência no assunto. Interessante e ótimo a presença de Simplesmente Amor entre a visão e a revisão do filme; ficou claro pra mim a diferença entre os recursos que os dois filmes usam para cativar e emocionar o espectador diante de suas melosas histórinhas de amor - enquanto Brilho eterno tá sempre com medo e tentando esconder os truques que usa (do cabelo de Kate Winslet ao Jim Carrey miniatura das memórias infantis), tentando se passar por algo maior e melhor (em sua própria mente louca), o primeiro tem plena consciência do que está fazendo, não parece estar nem aí pra isso, e chama o espectador pra entrar naquele brincadeira que lhe trará, no final, compensação. O que não acontece no caso do filme de Gondry, que apenas arranha alguma genuinidade (precisamente na cena onde Winslet diz: "pois é, dentro de pouco tempo vai tudo acabar, o quê a gente faz?", e Carrey responde secamente, num misto de alegria e tristeza e no melhor momento de um de seus melhores momentos como ator: "Enjoy.") e diversão rasa (é mais válido se deixar levar pelos truques, no fim das contas). Dessa vez encarei o OK final não com um sorriso no rosto, mas sim com um "é..." de decepção.]

15 - Fahrenheit 11 de Setembro (Fahrenheit 9/11, Michael Moore, 04) - Cinema/dia31 79

[Moore mostra-se um tanto limitado enquanto documentarista, e usa aqui a mesmíssima estrutura de Tiros em Columbine - nota-se a presença de uma musiquinha cool (que funciona) à cada novo, digamos, "parágrafo" do filme, e a cena do final, sai K-Mart entra mãe-chorando-pelo-filho-em-frente-a-Casa Branca (numa sequência que deixa sérias dúvidas quanto à sua autenticidade, aliás). Incomoda, além disso, o retrato desnecesariamente forçado de um Iraque feliz e colorido pré-bombardeio norte-americano. É um filme datado, como todos vêm dizendo, e assumidamente panfletário. Moore não quer Bush reeleito e fará o que puder para que tal fato não se concretize, ponto.Fará o que puder MEEESMO, ponto. É louvável a imensa, absurda, exagerada vontade que o cineasta tem de tirar Bush do poder, de dar informações que para ele são essenciais, de dar a chance do mundo ver as coisas por um outro e novo ângulo. Por acreditar tanto no que diz, Moore faz com que alguns dos espectadores o vejam como um homem que julga-se capaz de disparar verdades atrás de verdades - poder esse que evidentemente ninguém possui, blá blá blá. Eu não faço parte dessa parcela do público, e acho inclusive que esse fato só faz a obra de Moore se tornar mais honesta e sincera. A impressão que tenho é de que, para ele, fazer com que o espectador saia do cinema convencido é mais um de seus deveres enquanto cidadão americano - chamem-me de ingênuo, inocente, achem isso ruim; mas eu vejo aí uma juvelinidade quase-encantadora, que é a principal responsável pelo filme se auto-afirmar (e ser) tão urgente e necessário. Surpreende o excelente uso das imagens - muita coisa dita no filme já é figurinha antiga do discurso de Moore, mas muda completamente de figura quando vista num cinema (basta comparar a sensação de ver o filme com a de ler o livro). Imagens que por si só assustam, chocam, surpreendem, divertem, emocionam, esclarecem. E quando é hora do ataque às Torres Gêmeas a tela fica preta. Desfecho na mosca; pra ver de novo, de preferência antes das eleições.]


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