FILMES 04 05

Quinta-feira, Setembro 16, 2004

Setembro:

[últimos: B-HAPPY (23), WHISKY (71), SANTA MENINA (51 --> 57 --> 61), KICK 'N RUSH (84), O OPERÁRIO (49), DOGORA (52), ZATOICHI (78), OLHOS DE RINOCERONTE (30)]

01 - /Por um fio/ (Phone Booth, Joel Shumacher, 03) - TV/dia15 58

02 - O terminal (The terminal, Steven Spielberg, 04) - Cinema/dia15 69

[Escorrega feio (pescou, pescou?) quando tenta levar adiante uma trama bonitinha-mas-ordinária que diz didaticamente - nada que chegue aos calcanhares de um ''Amistad'', no entanto - tudo aquilo que teoricamente já estava subentendido sem que fosse necessário fazê-lo. Mas quando deixa Tom Hanks simplesmente brilhar como um estrangeiro preso em um aeroporto, sem maiores pretensões ou interesses, é das coisas mais prazerosas que vi no cinema este ano. Ri à beça, e não ria assim ao assistir um filme há um bom tempo (rio agora se quiser lembrar de uma ou outra cena, acho que isso diz alguma coisa). As referências a Capra e Chaplin podem até ser óbvias (o herói tipicamente Capriano, comum, de bom coração etc, o jeito de andar à Carlitos do protagonista -- em Embriagado de Amor ninguém reclamou disso, reclamou?), mas Spielberg fez algo maior e mais difícil: deu a seu filme o mesmo espírito e gosto de um ''Aconteceu naquela noite'' ou um ''Tempos Modernos''. Soa como um ''muito obrigado por tudo, mas não sei como agradecer'' absolutamente sincero.]

03 - Colateral (Collateral, Michael Mann, 04) - Cinema/dia16 53

[Não me parece muito certo se quer ser uma peça de entretenimento barato para consumo rápido (utilização todos os clichês do gênero, mais interesse na trama do que nos personagens, etc) ou um quase-filme-de-arte a ser cultuado, com personagens bem desenvolvidos, multidimensionas e cenas de impacto como aquele em que protagonista e antagonista param nas ruas de Los Angeles e por dois minutos observam cães atravessando a Avenida, ao som de música melancólica e em câmera lenta. Na dúvida, acaba por não se resolver bem em nenhum aspecto -- soa forçado nessas investidas em sair do óbvio (a cena citada, o final) e aboslutamente comum quando o é (a sequência na boate, a perseguição no metrô). Fiquei sem saber (e provavelmente os realizadores disso aqui também estão bastante confusos) se é o filme do Tom Cruise como vilão, ou filme do Michael Mann sobre duas pessoas diferentes numa noite de Los Angeles.]

04 - Olhos de Rinoceronte (Rhinoceros eyes, Aron Woodley, 03) - Cinema/dia25 [*FESTIVAL DO RIO*]

30

[Primeira lição: nunca mais confiar nessas sinopses escritas sob encomenda para o Festival do Rio. Olhem isso: ''Jovem que passa a maior parte de seu tempo num cinema, quando apaixona-se precisa lutar contra seu maior inimigo: sua própria imaginação''. E eu pensando que podia esperar algo, err, no mínimo bastante diferente do pseudo-Donnie Darko de quinta categoria que encontrei. Os personagens não passam de esteriótipos (o garoto perturbado, o jovem policial honesto/determinado etc), a atuação do cidadão que interpreta o garoto perturbado em questão é das mais caricatas que já vi (o que são aquelas mãozinhas tortas, meu deus?) e a relação mundo real/cinema-mundo real/imaginação é explorada de maneira decente apenas uma vez ao longo dos aparentemente (e só aparentemente) curtos 90 minutos de projeção, no que resulta na provável única cena decente de todo o longa. Uma bosta.]

05 - Zatoichi (Zatoichi, Takeshi Kitano, 04) - Cinema/dia27 [*FESTIVAL DO RIO*]

78

[Há os mocinhos (pessoas boas, que fazem o bem porque...são pessoas boas) de um lado, e os bandidos (pessoas más, que fazem o mal porque...são pessoas más) de outro. Mas não decidi se isso é bom ou ruim, ainda transita (dentro dessa minha cabecinha oca e cheia de dúvidas) entre o simplista/pobre de conceito, e o ingênuo/otimista conquistador. Acho, no fundo, que é um pouco dos dois, e de qualquer forma não é um detalhe (o filme em si nem me parece muito interessado em discutir qualquer coisa nesse sentido) que vai me fazer deixar de apreciar algo tão delicioso de se assistir quanto isso aqui. Duas coisas me impressionam: a forte presença do humor na trama - sinceramente não fazia idéia de que ia rir tanto (lembra bastante KILL BILL nesse aspecto, pois é); e como isso é um filme tão excepcionalmente bem filmado. Como em DOLLS (único outro do diretor que vi), há uma penca de cenas/imagens assustadoramente lindas - a diferença é que este se comunicou bem melhor comigo; é de mais fácil aproximação, acho.]

06 - Dogora (Dogora, Patrice Leconte, 04) - Cinema/dia27 [*FESTIVAL DO RIO*]

52

[É bacana, as imagens são bonitas - se você fizer um esforço até pode-se dizer que elas falam um bocado sobre o que é a vida no Camboja -, acredito que seja um trabalho repleto de boas intenções. Mas enfim. Chega uma hora que cansa, esgota. E eu só tinha dormido 5 horas na noite anterior, dêem um desconto. Vi 45 minutos dos 80 e apaguei. (Nocaute técnico, eu diria)]

07 - O operário (The machinist, Brad Anderson, 04) - Cinema/dia27 *FESTIVAL DO RIO*

49

[Até curioso em alguns momentos, mas excessivamente óbvio e subaproveitado -- AH, e com uma atuação principal deveras afetada. O roteiro é uma bosta, espécie de campanha publicitária da polícia (´´se você atropelar algum menininho indefeso, meu filho, não fuja do local do acidente. Dê parte em alguma delagacia perto de você, caso contrário a sua pessoa ficará com a consciência pesada, desenvolverá uma insônia crônica que durará mais de um ano, se tornará paranóico e pode vir inclusive a acidentalmente matar companheiros de trabalho e tratal mal a mulher que ama. Cuidado``), mas se houvesse um diretor minimamente decente por trás disso tudo, não era muito complicado criar momentos de tensão, envolver o espectador. Do jeito que está, o máximo que faz é provocar umas risadas involuntárias vez por outra.]

08 - Kick 'n rush (2 ryk og 1 aflevering, Aage Rais, 03) - Cinema/dia28 [*FESTIVAL DO RIO*]

84

[Impossível falar qualquer coisa mais elaborada, pelo menos por enquanto. Ainda estou assustado com o quanto me identifiquei com isso aqui. Mas é um filme excelente, ainda se deixarmos de lado o fato de ter dialogado perfeitamente com a minha pessoa. Quero ver de novo, tomara que entre em circuito.]

09 - B-Happy (B-Happy, Gonzalo Justiniano, 03) - Cinema/dia29 [*FESTIVAL DO RIO*]

23

["Pobre coitada indefesa Vs A grande vilã Vida", poderia se chamar. Quer mostrar o quanto a Vida é dura e cruel, e o quanto algumas pessoas sofrem quando ela (a Vida) resolve lhes dar uma rasteira -- e acha que esse fato é o suficiente para se ter um bom filme em mãos, pff. Algo como "a protagonista está passando por maus bocados aí, tenham um pouco de consideração e gostem do meu longa-metragem medíocre". Noventa minutos de clichês e menininha-de-15-anos-sacaneada-pela Vida-em-situações-casca-grossa (a passagem pelo reformatório é o cúmulo, pelo amor de deus) filmados da maneira mais óbvia possível. É o EM NOME DE DEUS desse ano.]

10 - WHISKY (Whisky, Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, 03) - Cinema/dia29 [*FESTIVAL DO RIO*]

71

[Claramente muito mais interessado em criar um clima de frieza/introversão estranhamente afetuso (características essas que também são atribuídas ao trio de personagens centrais), do que em qualquer outra coisa, como por exemplo dar continuidade a uma trama que em boa verdade nunca chegou a existir. E cria, a atmosfera é perfeita. É um filme que parece não querer nada além de querer muito falar sobre pessoas, e isso já é mais do que meio caminho andando. Encanta nas pequenas coisas - sejam elas gestos ou ações de seus personagens (todos eles defendidos por atores em grandes momentos), seja o modo absurdamente meticuloso como filma a rotina, seja a visão a respeito da solidão, seja o humor sutil que surge naturalmente e funciona em cada única investida.]

11 - Santa menina (La niña santa, Lucrecia Martel, 04) - Cinema/dia29 [*FESTIVAL DO RIO*]

61

[Não peguei o espírito da coisa (não percebi muito bem o que a diretora conceituada quis dizer, não achei a genialidade escondida no final impactante, não vi O Pântano). E tenho essa mania feia de não gostar dos filmes que não entendo -- ou não entendo, err, digamos, muito bem. Mas esse faço questão de rever (sabe lá Deus quando), porque cada vez mais tenho a certeza de que vi o trabalho de uma diretora segura, que tem total noção do que está fazendo, de câmera fascinante etc. Quer dizer: a verdade é que as imagens quase que me hipnotizam, mas eu tenho essa obsessão por conteúdo e sou muito orgulhoso, não sei conviver com a possibilidade de ter sido estúpido uma vez na vida. UPDATE: Não paro de pensar no filme, e ele não pára de crescer no meu conceito. Ao mesmo tempo em que cada vez mais tento - sem sucesso - compreender quase tudo relativo ao conteúdo (discussões sobre religião, sexo, família, e acho eu algumas outras coisas), cada vez mais me fascinam as imagens, o poder da câmera da diretora (que é uma coisa absruda). E de uma maneira meio inexplicável, que eu não consigo entender muito bem. A única coisa que sou capaz de fazer é ligar adjetivos positivos à palavras como imagens, câmera e direção. Mais é mais que isso, muito mais. Só preciso descbrir exatamente porquê.]

Home